A morte do Marcelera me fez pensar umas coisas. Desde que a Sophia me ligou pra dizer sobre ele não paro de lembrar das pessoas que ficaram longe enquanto eu sai pra um lugar cheio de gente fria e estranha em busca sabe-se lá do que.
Marcelera e eu éramos amigos. Nós nos conhecíamos há pelo menos uns sete anos. Ele era da galera do trance, da qual fazem parte um monte de gente que eu gosto muito e vivi momentos lindos e engraçadíssimos, que se eu contar, ninguém acredita.
Marcelo, ou Dj Marcelera, era mais que DJ de Psy, era produtor das festas de trance mais legais que existiam na região. A gente se entendia porque acreditávamos naquela energia toda. A cena perdeu uma perna. Digo mais. Perdeu um coração.
Eu me lembro dele em estado de graça no Festival Fora do Tempo, onde se eu não me engano, também teria tocado. Com o corpo completamente tostado de sol, ele ria juntos com outros amigos, parecia uma criança em um parque de diversões. Marcelera era um cara engraçado, nunca soube de treta nenhuma dele com outras pessoas.
É clichê, mas nessas horas a gente pensa que ninguém vai durar pra sempre. De repente a pessoa não está mais online no Facebook comentando na nossa comunidade de música eletrônica. Não vou mais poder encontrar com ele pra dar um balão e umas risadas quando eu voltar a Belém nas férias.
Ele foi embora. De uma maneira cruel e violenta. Belém está perigosa demais. Outro dia saiu uma pesquisa que colocava a cidade entre as dez mais perigosas do mundo. DO MUNDO. E a maioria das pessoas que eu admiro e considero estão lá, a mercê da falta de segurança e outras políticas públicas.
Aí eu entro em desespero porque queria abraçar minha família e ouvir as gargalhadas dos meus amigos de madrugada, depois de muitas garrafas de qualquer coisa alcoólica. Passar as festas de final de ano em São Paulo é deprimente, ainda mais depois da morte de um amigo. Todos os paraenses fugiram da solidão da cidade cinza para ver os parentes, sair com os amigos depois do Natal (costume que é muito mais forte lá do que aqui).
Assim como o Marcelo, Belém te oferece um leque de pessoas legais. Que gostam de viver e que não pensam somente em dinheiro. Minhas melhores amigas estão lá, assim como muitas pessoas que eu amo e tenho saudades. Mas o tempo e os afazeres nesta cidade às vezes não dão tempo de parar para bater um papo e saber como estão as coisas.
E a vida segue. Eles lá. Eu aqui querendo fazer parte dos acontecimentos das pessoas legais. Indo nas festas legais, encontrar as mesmas pessoas legais de sempre, mas por você sempre vê-las, parece que perde o encanto. Coisa de cidade “pequena”.
É. Não dá pra ter tudo. Dai você passa muito tempo planejando morar fora, ter oportunidades interessantes e depois muito tempo planejando uma viagem rápida pra rever a família, de sangue ou não, que ficaram lá torcendo pelo seu sucesso.
Por coincidência ou não, ando ouvindo uma música que parece entender completamente o que acontece (ouça no link acima deste texto). Sempre que ouço, lembro dos meus amigos. Dos antigos, dos novos, dos que ficaram no meio do caminho, mas não foram esquecidos.
Se eu pudesse estar com meus amigos esta noite…




